Planeta Fome leva cinema de Rondônia a 100 festivais
Animação feita em Porto Velho recebe prêmios internacionais e transforma desigualdade social em alerta global
Autor
Redação
Publicado em
Leitura
3 min
Região
📍 Porto Velho - RO
Fonte
G1.globo

O curta-metragem Planeta Fome, produzido em Porto Velho, ultrapassou a marca de 100 seleções em festivais e mostras de cinema. A animação dirigida pelo cineasta rondoniense Édier William já percorreu mais de 20 países, colocando Rondônia em um circuito normalmente dominado por produções dos grandes centros.
Entre os países que receberam o filme estão México, Espanha, Índia, Marrocos e França. A obra também conquistou o prêmio de melhor curta de animação no Festival Internacional de Cine de Lanzarote, nas Ilhas Canárias, e o de melhor filme de animação no Festiver, realizado na Colômbia.
O desempenho internacional chama atenção não apenas pelos números. Produzido longe do eixo tradicional do audiovisual brasileiro, Planeta Fome mostra que uma história criada na Amazônia pode circular pelo mundo sem precisar esconder o endereço de origem.
Distopia mostra Porto Velho sem árvores
A narrativa é ambientada no ano de 2125, em uma Porto Velho sem vegetação e marcada pelo avanço da miséria. No centro da história estão uma mulher negra, mãe solo, e o filho de oito anos, que tentam sobreviver enquanto preservam o pouco de dignidade que lhes resta.
A inspiração veio de uma das imagens mais duras da pandemia da Covid-19: famílias disputando restos de ossos em açougues. O episódio levou Édier William a transformar a realidade da fome em uma ficção científica sobre desigualdade, abandono e pobreza.
Embora se passe no futuro, o curta trata de problemas bastante atuais. A distopia, nesse caso, apenas muda o calendário. A fome continua reconhecível.
Filme sem diálogos atravessa fronteiras
Planeta Fome não possui falas. A história é conduzida pela animação, pelas imagens, pela trilha sonora e pelo desenho de som.
A escolha ajuda a explicar a circulação internacional da obra, já que elimina barreiras linguísticas e permite que a mensagem seja compreendida por públicos de diferentes países. Um filme sem diálogos, ironicamente, conseguiu dizer bastante sobre um problema que governos ainda tentam explicar demais.
Para o diretor, a recepção também demonstra que o cinema amazônico não precisa ficar limitado a histórias sobre floresta. A região produz animação, ficção científica, narrativas urbanas e obras políticas capazes de dialogar com temas universais.
Lei Paulo Gustavo financiou produção
O curta foi viabilizado por um edital municipal da Lei Paulo Gustavo, administrado pela Fundação Cultural de Porto Velho. Selecionado na categoria destinada a produções de até 15 minutos, o projeto recebeu R$ 81.666,66.
O investimento permitiu contratar profissionais especializados, remunerar a equipe e movimentar a cadeia produtiva audiovisual da capital. O resultado reforça o peso das políticas públicas de cultura em estados onde conseguir financiamento privado ainda é uma espécie de roteiro de suspense.
A produção deverá continuar participando de festivais e mostras no Brasil e no exterior até março de 2027. Depois desse circuito, a expectativa é que Planeta Fome seja disponibilizado em plataformas de streaming. A projeção internacional pode abrir espaço para novos projetos do diretor, ampliar a visibilidade dos profissionais envolvidos e facilitar a entrada de outras produções rondonienses no mercado audiovisual.
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